No segundo semestre de 2007 minha noiva conseguiu entrar para faculdade e começou a cursar psicologia. Logo no primeiro período ela encarou as desconfortáveis aulas de anatomia e, com o passar das aulas, ela foi associando o tecido muscular humano ao tecido muscular dos bifes e cubos de carne que recheavam nossos refogados de legumes e lasanhas. Isso acabou por gerar uma repulsa no ato de comer esses ingredientes da culinária, até então necessários a nossa boa saúde.

 

Ela parou de comer pedaços de carne e passou a consumir somente hambúrgueres, stickers de frango, presunto, salsicha… Enfim… Evitava tecidos musculares que lembrassem os dos cadáveres no laboratório de anatomia e passou a comer carne processada e embutida. Apesar do mito da carne ser forte em nossas vidas, eu já havia lido algum material sobre os possíveis e dramáticos danos a saúde que esse tipo de produto pode causar, e causa, a nossa saúde.

Também já havia tido algum contato com o modo de pensar filosófico e sabia que certas questões só se resolvem mostrando os fatos como eles são e não como queríamos que eles fossem. E, levado pelo mito mais que arraigado de que carne é indispensável ao bem viver, lá fui eu buscar argumentos pela web discada (rsrs… isso mesmo, de 40 a 60kbps) para fazer minha amada voltar a comer carne em suas refeições e não correr o risco de ficar com anemia, falta de proteína e muitos outros males que a falta da carne supostamente poderia causar.

 

Em menos de um dia de pesquisa já comecei a estranhar os resultados que o Google me retornava, mas fui insistindo, trocando os termos e quanto mais eu tentava procurar justificativas para o consumo de carne mais eu encontrava motivos para não se comer, de jeito nenhum, carne alguma, nem de peixe! Mas como assim, nem de peixe?! É o alimento mais saudável que existe! Não estava entendendo nada…

 

Vim da roça, Cabeceira do Pirapitinga, onde cidade mais próxima era a três horas andando com as próprias pernas ou duas com as pernas do cavalo. Onde se escolhe um porquinho da ninhada, vende os outros para os vizinhos, cria-se o porquinho escolhido com lavagem (restos da comida da família) até quando ele se torna um capado (engorda tanto que mal consegue ficar em pé), era escolhido um dia, sábado ou domingo, para que assim a vizinhança pudesse ajudar a destrinchar o pobre a animal. Se o porco era calmo, despejávamos a lavagem no cocho e enquanto ele comia distraído, erguíamos o machado e em um golpe bem certeiro na testa era deferido (um estalo do traumatismo era ouvido a distancia e seguido de um choro do animal), se não fosse um porco calmo, tínhamos que laçar pelo pescoço e amarrar os membros e, aí sim, a machadada o fazia ficar com os movimentos limitados (mas o fim era o mesmo, o estalo e o choro), (estou respirando profundamente para poder escrever estas palavras que relatam minha infância, não é fácil ter participado disso…) e então era hora de apunhalá-lo bem no coração. Se não houvesse erros o porco chorava desesperado por uns três minutos, se a machadada e a punhalada não fossem precisas o choro desesperado era ouvido por vários minutos. Os mais antigos (pessoas de mais idade cronológica) pediam para as crianças saírem de perto, pois, se alguém estivesse olhando a cena com pena (compaixão e busca por alteridade, depois eu fui entender isso) o porco não morreria nunca e agonizaria para sempre. Então as crianças tinham que sair sempre de perto. Não vou comentar o processo que passavam as vacas, galinhas, peixes e animais que eram caçados, pra não ficar muito longo o texto.  Mas isso tudo era tido como algo normal!

 

Como poderia algumas pessoas que escreveram linhas de argumentos sólidos me convencerem de que tudo o que estava em minha memória afetiva estava errado?! Não foi o suficiente! E continuei a pesquisar, quanto mais eu pesquisava argumentos pró-carne, mais me apareciam termos como “vegetarianismo”, “direitos animais”, entre outros, até que me deparei com um site de filosofia que tinha um link para o documentário chamado “Terráqueos”. Calcule aí comigo: 700mb a 5kbps = cercas de 39 horas de download. Pois é, foi o tempo que meu intelecto, movido pelo interesse em ajudar minha noiva a superar a neura da comparação dos tecidos musculares humanos e animais e isso se tornar motivo de não comer carne, ser superado que me fez ter paciência o suficiente.

 

No primeiro ou no segundo sábado de setembro de 2007, não me lembro ao certo, pela manhã, por volta das 11hs, minha vida mudaria para sempre.

 

Não conseguimos assistir ao documentário de uma só vez, tivemos que apertar pause na hora em que o cão se encontra com o caminhão de lixo, chorávamos muuuuuuuito…

 

Minha vida pode ser dividida em antes e depois daqueles raros e revolucionários minutos diante da tela do pc, de mesa, com tela de tubo de 14’ e com net discada. Pois foi o momento que julgo ter entendido o que significa ter alteridade.

Eu já presenciei cenas e fiz coisas horrivelmente cruéis com animais que talvez nunca tivessem sido revistas e ressignificadas se não fosse pelo documentário Terráqueos. Talvez quem assistir vai achar muito dramático e sensacionalista, mas é importante dizer que aquilo são cenas reais, filmadas durante cinco anos de muito planejamento e coragem de quem se propôs a passar por momentos tão horríveis. O documentário é traumático no sentido primeiro da palavra, é uma quebra na nossa aparente realidade de paz. Não há aquela paz desenhada nos rótulos de caixas de leite, manteiga e bifes de hambúrgueres. Aquelas cores são as sombras de um lugar pior do que Auschwitz ou o inferno descrito na bíblia.

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